quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Vivo muito bem por dois meses depois de um bom elogio. Mark Twain.
Isadora era a própria pérola da ostra fitando-se no espelho. Pele lisa, sem vincos, um discreto cor-de-rosa com salmão sob os cílios como se o sol tivesse se posto derramando no horizonte uma paleta de tons pastéis.
Tudo havia mudado depois do tratamento.
Ainda na calçada, na banca de revistas do Leo, o comentário era de que ela estava saudável, nossa, o que tinha feito?
No escritório, recepcionistas remexiam-se de curiosidade, a testa surpresa do rapaz que traz as bombonas d´água, olhares demorados do pessoal engravatado, tudo a deixava com ares de surpresa – embora nada a surpreendesse. Tudo estivesse dentro do que ela esperava.
Claro, tudo se encaixa. É que, afinal das contas, quem cuida da satisfação pessoal é o mercado. Mercado?
É, trata-se do mercado construído em torno do bem-estar de cada um. Pessoas que reparam ou se importam com o que fazemos, mostramos, dizemos, representamos.
Isadora estava feliz. E não era para menos.
Não é que ela estivesse feliz porque se sentisse linda. Era o mercado quem dizia que ela estava linda.
Esse mesmo mercado age em conexão direta com determinadas substâncias cerebrais, a química que navega em torno das células do cérebro.
O que acontece no mercado é transportado para dentro da cabeça. Nada que seja imediato, mas que promove uma mudança gradativa.
Digamos que você deseja um celular. Alguns modelos começam a atrair a sua atenção. Ao longo de dias, modelitos são eliminados, outros permanecem na lista de desejáveis. Nas células do cérebro, o mercado vai escrevendo o que interessa, e o que não.
Uma das substâncias-chave do processo é chamada de serotonina. Quando abrimos a janela do quarto pela manhã e deixamos o sol entrar para cumprimentar o mundo lá fora, é ela quem nos compele a fazer isso; quando chegamos em casa e achamos que o dia não passou de um tom de cinza para o outro, é ela quem escondeu a paleta de cores dos nossos olhos.
A serotonina reflete o mercado.
Um estudo recente dividiu mulheres diagnosticadas com depressão leve em dois grupos. Um deles recebeu uma medicação diária, na forma de pílulas de fluoxetina. As mulheres do outro foram encaminhadas ao salão de beleza. Ao final, todas foram reavaliadas, e qual foi o resultado?
Ora, os níveis de melhora foram os mesmos para os dois grupos. De início houve surpresa, depois assimilada entre os pesquisadores. Em um caso, a intervenção sobre a serotonina foi direta, pela química do remédio. No outro caso, a química cerebral respondeu ao mercado.
Mas não podemos minimizar essa alça química indireta, ela é muito poderosa.
A gota d´água ficaria por conta do Marcelo, que mais tarde diria você está divina, misteriosa e linda, mal posso deixar para beijá-la em casa e, de fato, ele não esperou mesmo, beijando-a ali no mezzanino do restaurante, bem na frente do maitre que restou imperturbável mas sorridente e enquanto Marcelo reforçava que ela estava lindíssima ele já os encaminhava à primeira mesa disponível.
Cuidar da aparência faz com que o impacto da mudança seja retransmitida de volta à pessoa. Não é meramente uma coisa que vai do espelho para a alma. A alma humana é mais exigente do que isso. A alma é mais interesseira, mais volúvel. Deseja saber se o cuidado a que nos dedicamos efetivamente causa impacto nos outros. Deseja saber se o impacto deixa marcas no mercado. E se ele é de magnitude suficiente para ser percebido pela alma. Pela serotonina.
Mignon McLaughlin está certo. Ele escreveu que o homem prefere o elogio curto, de impacto certeiro. Já a mulher anda de mãos dadas com o elogio incompleto porque ele sempre deixa a porta aberta para o próximo, depois outro e ainda mais outro.
No fundo, é a serotonina cerebral quem redescobre – todos os dias – a nossa paleta de cores. E todos os dias a vida muda.