A vida é frágil. A medicina nos salva,
mas podemos morrer de uma coisa como a anemia aguda de esperança!
A visão é uma obra-prima. Graças ao
tecido que recobre o fundo dos olhos, o cérebro é informado do que ocorre à
nossa volta. Por um par de nervos.
O inusitado
é que em vez de cada nervo óptico seguir o seu caminho, eles cruzam para o lado
oposto. Como resultado, o nervo do olho direito vai parar no cérebro esquerdo,
e vice-versa.
A vantagem
é evitar que tenhamos visão de sapos, cada olho para o seu lado. Com o
cruzamento e uma certa refinação da coisa, cada hemisfério humano recebe
informações dos dois lados. Por causa disso, nossa visão é dotada de
profundidade.
O xis do
cruzamento assenta-se sobre uma glândula do tamanho de uma azeitona. É uma zona
perigosa, que pode abrigar um tumor. Ao crescer, ele vai para cima, na direção
do xis.
Foi o que aconteceu com Krishna, um
menino hindu de 7 anos, que de certo dia em diante passou a não enxergar.
Órfão, e desde cedo adotado pelo avô, ele o levou à consulta em um hospital da
antiga Bombaim.
Era um menino notável, esse Krishna.
Memorizara a voz de cada um na enfermaria. Mapeara os corredores e os espaços
entre os leitos. Era capaz de conduzir o carrinho de curativos pelos caminhos
mais intrincados.
Cabelos pretos, pele morena e os
pequenos brancos dentes sempre à mostra, ele possuía um brilho incomum nos
olhos cegos. Sabia um pouco de inglês e cantava duas ou três canções. Por onde
passava, deixava coragem e esperança.
No nono ou décimo dia depois da operação
que removera o tumor com comemorado sucesso, um assistente perguntou sobre as
chances de Krishna voltar a enxergar. “Nenhuma”, respondeu o doutor Choudhari,
neurocirurgião do lugar, “o cruzamento da visão foi afetado.”
Krishna escutara a previsão. Daquele dia
em diante se calaria.
A voz sumiu, canções silenciaram, o
carrinho de curativos estacionou e os olhos cegos perderam o brilho. Teve alta
e foi-se embora com o avô. Faleceu menos de um ano depois. Pouco tempo depois,
foi-se o avô.
Na semana passada, o editor de uma
semanário científico inglês publicou a história contada por Choudhari, que se
passara no início dos anos 80. Médicos experientes não precisam de necropsia
para saber do que Krishna morreu. Uma desidratação da alma secou-lhe a vida e a
tristeza se encarregou de sepultar o avô.
Podemos perecer de intoxicação auditiva. A vida é frágil. A
medicina nos salva de um tumor cerebral, mas morremos de anemia aguda de
esperança. Uma dessas coisas que a gente acha que nunca vai bater na nossa
porta.
Devemos
ficar atentos. Se nos removem o sonho, aquele que encabeça a lista de desejos e
prioridades, ou nos lançam uma semente de desconfiança, que acaba se
transformando na certeza que o gol de placa que um dia queremos marcar não
existe, as delicadas células-chave no organismo vão paralisar.
Nada de
ouvidos soltos. Filtre o que é dito com ares de pessimismo. Não dê acesso à
teia de esperança que você construiu. E não vá pensar que é coisa de criança. Todos
têm um Krishna dentro de nós. Só a esperança vai deixá-lo morrer de velho.
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