Para que você possa viver bem, seu
coração precisa saber calcular as batidas. Conselho difícil para pôr em
prática, eu sei, mas a receita vai aqui.
Você é
razoavelmente sarado. Nesse caso, em repouso, seu ritmo cardíaco andará na
faixa de 60 a 72 batimentos por minuto, em média. Vamos ficar com os 60, para
um exemplo. Sessenta batimentos por minuto quer dizer que o coração dá 1 batida
a cada segundo.
Seu coração acabou de bater e a próxima
batida demorará 1 segundo para entrar. E a terceira, outro segundo, e assim por
diante.
O que o coração faz com esse segundo,
entre uma batida e outra? Bem, ele a divide em 2 tempos. Na primeira metade,
ele se recupera da contração anterior. Não é brinquedo não ─ a cada batida ele
precisa empurrar uma coluna de sangue com grande pressão para a frente. Para
isso, espreme-se da ponta para cima, e ejeta uma quantidade incrível de sangue
contra resistência. Isso consome energia e requer um lapso de tempo para que o sistema
se refaça antes da próxima contração.
Por isso, durante o primeiro
meio-segundo, o coração se recupera. Afinal, ele não para nunca, não ganha
massagem, nem tira férias.
No segundo, ele consulta o miolo
cerebral. Ele tem uma pergunta direta e frontal para fazer: a próxima batida é
normal ou há algum motivo que exija um ritmo mais acelerado?
Na ausência
de resposta, o ritmo baixo é mantido. Mas, em geral, o cérebro tem algo para dizer.
Suponha que uma pergunta esteja dançando em sua mente. Tenho emprego hoje? Vou
precisar brigar com quem? Vou ser gostado? Terei quem amar amanhã? Há milhares
delas.
Se a consulta encontrar algo como
“...detesto quando meu chefe vem com aquela ladainha e da próxima vez vou ...”
o coração encurta a segunda metade. Em vez de 0.5 seg, ele espera só 0.45 seg e
manda ver a próxima batida.
E aí a vida passa a ter problemas. Tudo
iria bem se não tivéssemos um detector de regularidade dos batimentos
cardíacos. Mas temos. Sua função, ao detectar segundas-metades diferentes de
0.5 seg, é produzir cortisol, um hormônio que nos prepara para sair do trivial
e entrar em guerra declarada.
É como numa
empresa. O CEO manda, mas ele precisa do aval do Conselho Consultivo. O
Conselho não manda, mas determina o que acontece no longo prazo. Se estiver em
desacordo com o Conselho, o CEO pode mandar por um tempo mas as coisas vão
andar mal. Tá cheio de empresa familiar fechando por conta dessa briga. E muito
acionista perdendo dinheiro porque o CC e o CEO não se acertam.
Assim é com o coração. Ele vai consultar
o andar de cima antes de cada batida, quer você queira, quer não. O que você
tem a oferecer? Problemas, dúvidas existenciais, angústias, brigas e um sistema
para gerenciar um sofisticado brejo de sapos engolidos?
Procure algo melhor. Um sorriso, um elogio conquistado na manhã de
trabalho, um afago verbal de quem você ama, a luz que brilha no norte do seu
firmamento, um e-mail com poucas linhas e muita emoção. Tudo isso não é difícil
de se obter e não se mete com o ritmo do coração.
Comece
agora. Mantenha os olhos no monitor, mas olhe para além dele. Sorria o sorriso
pequeno do Clint Eastwood (que sorri quase nunca) ou o enorme da Julia Roberts.
Vá para dentro de si por uns segundos e sussurre coisas para o seu coração
bater alguns meio-segundos sem aperreios.
Você vai ver como sua vida vai ter cores
que você nem achou que ia ver.
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