quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A segunda metade da batida do coração


Para que você possa viver bem, seu coração precisa saber calcular as batidas. Conselho difícil para pôr em prática, eu sei, mas a receita vai aqui.
Você é razoavelmente sarado. Nesse caso, em repouso, seu ritmo cardíaco andará na faixa de 60 a 72 batimentos por minuto, em média. Vamos ficar com os 60, para um exemplo. Sessenta batimentos por minuto quer dizer que o coração dá 1 batida a cada segundo.
Seu coração acabou de bater e a próxima batida demorará 1 segundo para entrar. E a terceira, outro segundo, e assim por diante.
O que o coração faz com esse segundo, entre uma batida e outra? Bem, ele a divide em 2 tempos. Na primeira metade, ele se recupera da contração anterior. Não é brinquedo não ─ a cada batida ele precisa empurrar uma coluna de sangue com grande pressão para a frente. Para isso, espreme-se da ponta para cima, e ejeta uma quantidade incrível de sangue contra resistência. Isso consome energia e requer um lapso de tempo para que o sistema se refaça antes da próxima contração.
Por isso, durante o primeiro meio-segundo, o coração se recupera. Afinal, ele não para nunca, não ganha massagem, nem tira férias.
No segundo, ele consulta o miolo cerebral. Ele tem uma pergunta direta e frontal para fazer: a próxima batida é normal ou há algum motivo que exija um ritmo mais acelerado?
Na ausência de resposta, o ritmo baixo é mantido. Mas, em geral, o cérebro tem algo para dizer. Suponha que uma pergunta esteja dançando em sua mente. Tenho emprego hoje? Vou precisar brigar com quem? Vou ser gostado? Terei quem amar amanhã? Há milhares delas.
Se a consulta encontrar algo como “...detesto quando meu chefe vem com aquela ladainha e da próxima vez vou ...” o coração encurta a segunda metade. Em vez de 0.5 seg, ele espera só 0.45 seg e manda ver a próxima batida.
E aí a vida passa a ter problemas. Tudo iria bem se não tivéssemos um detector de regularidade dos batimentos cardíacos. Mas temos. Sua função, ao detectar segundas-metades diferentes de 0.5 seg, é produzir cortisol, um hormônio que nos prepara para sair do trivial e entrar em guerra declarada.
É como numa empresa. O CEO manda, mas ele precisa do aval do Conselho Consultivo. O Conselho não manda, mas determina o que acontece no longo prazo. Se estiver em desacordo com o Conselho, o CEO pode mandar por um tempo mas as coisas vão andar mal. Tá cheio de empresa familiar fechando por conta dessa briga. E muito acionista perdendo dinheiro porque o CC e o CEO não se acertam.
Assim é com o coração. Ele vai consultar o andar de cima antes de cada batida, quer você queira, quer não. O que você tem a oferecer? Problemas, dúvidas existenciais, angústias, brigas e um sistema para gerenciar um sofisticado brejo de sapos engolidos?
Procure algo melhor. Um sorriso, um elogio conquistado na manhã de trabalho, um afago verbal de quem você ama, a luz que brilha no norte do seu firmamento, um e-mail com poucas linhas e muita emoção. Tudo isso não é difícil de se obter e não se mete com o ritmo do coração.
Comece agora. Mantenha os olhos no monitor, mas olhe para além dele. Sorria o sorriso pequeno do Clint Eastwood (que sorri quase nunca) ou o enorme da Julia Roberts. Vá para dentro de si por uns segundos e sussurre coisas para o seu coração bater alguns meio-segundos sem aperreios.
Você vai ver como sua vida vai ter cores que você nem achou que ia ver.




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