Já me perguntei diversas vezes o que
devo fazer com o cliente que entrou na loja, perambulou à vontade e respondeu
“não, obrigado, estou só dando uma olhada”. É uma resposta impositiva, até com
certa empáfia, que amordaça quem se presta a ajudar.
Há funcionário que fica meio sem jeito,
quase pede desculpas. Outros procuram esconder a irritação. É a enésima vez que
escutam isso. Sentem uma espécie de rejeição a eles.
Hoje em dia, é comum ver dono de loja e
empreendedor na linha de frente com o cliente. É fácil de perceber. O sorriso é
mais largo que o habitual. Cabeça levemente à frente, eles chegam a esfregar as
mãos para o fatídico “posso ajudar?” Mal sabem que acabaram de perder a venda.
Condescendência e a irritação deglutida
são reações emocionais mudas que o comprador detecta no ato. Ele vai só ficar
olhando. Não compra e vai embora.
O que
fazer, o que dizer? Já pensei de tudo. Tentar ser mais simpático, por exemplo.
Pega mal; a tentativa de dissimular que o que eu realmente desejo é vender não
funciona. Está bem, então sorrir, dizer o mínimo possível e deixar o cliente
totalmente à vontade. Também não; denota excesso de laissez-faire, afinal não
estamos em uma galeria de arte.
Decidi que o assunto era para ser
pensado por outros.
Só para provar que eu estava errado, a
ficha caiu há uns dias atrás. Eu lia sobre os resultados de um experimento
conduzido na Universidade de Utah. Era sobre minhocas e sobre como os genes
desses animaizinhos insignificantes modulam seu comportamento. Devem estar
brincando, o único comportamento da minhoca que eu conheço é fugir por entre os
dedos quando queremos colocá-la no anzol.
Genes geram proteína, a matéria-prima
que cola uma célula à seguinte. É o segredo por trás da transmissão nervosa, o
motor da mente. Mais genes, mais transmissão, mais assimilação, mais comportamento.
A mesma coisa ocorre dentro do seu
cérebro e do meu. Células nervosas são coladas umas às outras pelas proteínas.
Os mosaicos formados pelos impulsos químicos geram comportamentos. A exigência
é uma só: a perfeição do evento externo que desencadeia o processo. Quer ver
como?
Nessa semana, quando entrei na loja do
shopping e disse ao vendedor que eu estava só olhando, fui pego de surpresa.
Ele sorriu e disse: “fique à vontade, eu estarei ali organizando os novos CDs
importados que acabaram de chegar”.
Eu, que não tinha entrado ali para saber
de CDs, fiquei curiosíssimo para saber quais eram. Quando saí da loja, eu tinha
Come Dream With Me debaixo do braço e a certeza de que a pesquisa de
Utah estava por trás do que havia acontecido.
O sujeito
me deixou à vontade ao compartilhar a sua intenção. Soube desencadear um
comportamento que eu não havia planejado.
Genes,
proteínas e neurônios colados são o marketing do futuro. Por via das dúvidas,
aceite minha sugestão: faça bom uso de sua cola cerebral. É bom para os
clientes e bom para os negócios.
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