Meu amigo Cláudio franziu o cenho para
perguntar o que eu queria dizer com cáustico.
Cláudio é um comerciante de classe. Ao
longo de anos, transformara sua banca de frios no mercado público em um oásis
de especiarias. Presunto Parma, queijo suíço, costeletas defumadas, azeitonas
pretas, patê de fígado de ganso e lascas de arenque no óleo são compradas com a
participação ativa das glândulas salivares.
Na banca, a conversa do dia ganha mão
fresca de verniz. Na hora de receber o embrulho com as compras, o sorriso largo
e o volte-sempre generoso fazem a conta parecer menor.
Mas ele queria saber por que eu o achara
cáustico. Minha impressão era que a construção verbal do Cláudio naquele dia
parecia um pepino verde mergulhado no vinagre.
Usamos soda para desobstruir o
obstruído. O que está à frente morre. Cáustico está associado com morte. Por
isso instila desassossego.
No entanto, é certo que durante os
setenta e tantos anos de uma vida média vamos morrer duas vezes. E nenhuma das
duas deixa traço na memória.
A primeira é logo depois de nascermos.
Bebês com poucas semanas de vida apresentam extraordinária mortandade de
células cerebrais. Depois de cuidadosamente fabricadas, elas simplesmente
esperam o nascimento para serem dizimadas.
Essa
estranha execução é obra do DNA. A explicação é que precisamos do excesso para
moldar o que fica. O pedreiro economiza na argamassa ao erguer a parede? Não,
ele usa de golpes generosos para depois remover o excesso pela colher.
A perda de células prossegue pelo resto
da vida. Sem ter como combater o complô da natureza, o sujeito precavido luta
ao lado dela. No caso, emprega a colher para dar sucesso aos empreendimentos.
O bom comerciante sabe que cada dia
termina com algumas mortes ao redor. Como evitar a queixa do freguês impaciente
com seis pessoas à frente? Como abrandar a frustração pela falta de tâmaras
secas? E o aumento do preço do salmão norueguês?
O sucesso
do negócio está em expandir conexões. Como fazem os neurônios do cérebro. Os
que sobrevivem à extinção, voltam-se para os lados. Criam comunidades e, junto
com elas, pontes para desafogar o tráfego cerebral.
Comerciante bem-sucedido é construtor de
pontes. Numa ponta estão os neurônios que controlam o desejo do consumidor; na
outra, o seu negócio.
Estivemos
na banca na outra quinta, minha mulher e eu. Compras feitas, conversa em dia e
a conta paga, o Cláudio sorriu-nos à Lombardi e pediu para mostrar uma
novidade. Conduziu-nos ao balcão do lado e revelou-nos sua preciosidade para o
Natal. Uma lata de bombons de fina estampa. Uma borboleta lateral aciona uma
caixinha de música. “Vão-se os bombons mas fica a caixinha”, disse ele.
Cabe ao bom comerciante derrotar a
rotina do consumo. Recriar o encanto que move os negócios. A quem eu poderia
surpreender com um presente tão singelo e de bom-gosto? O desejo já estava
estabelecido entre meus suscetíveis neurônios cerebrais.
Ah, já me
esquecia da segunda morte. Não há descrição melhor que a de Montaigne. "Se
você ainda não sabe como vai morrer, não se preocupe com isso. Na hora, você
saberá o que fazer. Não vai haver como errar."
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