quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A morte diária


Meu amigo Cláudio franziu o cenho para perguntar o que eu queria dizer com cáustico.

Cláudio é um comerciante de classe. Ao longo de anos, transformara sua banca de frios no mercado público em um oásis de especiarias. Presunto Parma, queijo suíço, costeletas defumadas, azeitonas pretas, patê de fígado de ganso e lascas de arenque no óleo são compradas com a participação ativa das glândulas salivares.

Na banca, a conversa do dia ganha mão fresca de verniz. Na hora de receber o embrulho com as compras, o sorriso largo e o volte-sempre generoso fazem a conta parecer menor.

Mas ele queria saber por que eu o achara cáustico. Minha impressão era que a construção verbal do Cláudio naquele dia parecia um pepino verde mergulhado no vinagre.

Usamos soda para desobstruir o obstruído. O que está à frente morre. Cáustico está associado com morte. Por isso instila desassossego.

No entanto, é certo que durante os setenta e tantos anos de uma vida média vamos morrer duas vezes. E nenhuma das duas deixa traço na memória.

A primeira é logo depois de nascermos. Bebês com poucas semanas de vida apresentam extraordinária mortandade de células cerebrais. Depois de cuidadosamente fabricadas, elas simplesmente esperam o nascimento para serem dizimadas.

Essa estranha execução é obra do DNA. A explicação é que precisamos do excesso para moldar o que fica. O pedreiro economiza na argamassa ao erguer a parede? Não, ele usa de golpes generosos para depois remover o excesso pela colher.

A perda de células prossegue pelo resto da vida. Sem ter como combater o complô da natureza, o sujeito precavido luta ao lado dela. No caso, emprega a colher para dar sucesso aos empreendimentos.

O bom comerciante sabe que cada dia termina com algumas mortes ao redor. Como evitar a queixa do freguês impaciente com seis pessoas à frente? Como abrandar a frustração pela falta de tâmaras secas? E o aumento do preço do salmão norueguês?

O sucesso do negócio está em expandir conexões. Como fazem os neurônios do cérebro. Os que sobrevivem à extinção, voltam-se para os lados. Criam comunidades e, junto com elas, pontes para desafogar o tráfego cerebral.

Comerciante bem-sucedido é construtor de pontes. Numa ponta estão os neurônios que controlam o desejo do consumidor; na outra, o seu negócio.

Estivemos na banca na outra quinta, minha mulher e eu. Compras feitas, conversa em dia e a conta paga, o Cláudio sorriu-nos à Lombardi e pediu para mostrar uma novidade. Conduziu-nos ao balcão do lado e revelou-nos sua preciosidade para o Natal. Uma lata de bombons de fina estampa. Uma borboleta lateral aciona uma caixinha de música. “Vão-se os bombons mas fica a caixinha”, disse ele.

Cabe ao bom comerciante derrotar a rotina do consumo. Recriar o encanto que move os negócios. A quem eu poderia surpreender com um presente tão singelo e de bom-gosto? O desejo já estava estabelecido entre meus suscetíveis neurônios cerebrais.

Ah, já me esquecia da segunda morte. Não há descrição melhor que a de Montaigne. "Se você ainda não sabe como vai morrer, não se preocupe com isso. Na hora, você saberá o que fazer. Não vai haver como errar."

A fórmula do seu sucesso está na forma como você combate a morte diária no seu negócio. Essa é a única que você tem que se preocupar.

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