quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Porões e corredores


Então me perguntaram “por que sentimos atração por alguém?” Bem, sentimos por que sentimos. Convenhamos, não é uma resposta esclarecedora.
Alguém achou que é por que achamos alguém bonita ou bonito. É uma resposta, mas insuficiente.
Uma hipótese mais interessante é dizer que sentimos atração por alguém quando mudamos a imagem deste alguém de visual para mental. Qual é a diferença?
Imagem visual é um padrão de linhas, traços, cores e movimentos. Vem do mundo exterior diretamente para a zona de processamento visual do cérebro.
Imagem mental é o que o cérebro faz com ela. Portanto, a imagem mental é o aproveitamento da imagem visual; e no caso da atração, uma projeção futura.
Projeção futura?
Quando enxergamos algo, essa imagem sai da retina e segue na direção do tálamo. Ela o faz por uma estrada de duas vias. Uma carrega informações práticas, como os detalhes visuais, as cores, os ângulos etc. A outra, informa movimento e busca por promessa.
Do tálamo, o enxergado vai ao córtex, o lugar do cérebro mais sofisticado; é onde a informação é processada em definitivo.
Por que o tálamo, já que a imagem é processada no córtex cerebral? É por que dele a informação visual é despachada para outros centros, notadamente para a amígdala cerebral e as zonas de processamento das emoções.
Enquanto a informação visual é processada no córtex visual, nós desenvolvemos por ela certa simpatia ou certa antipatia.
O processamento visual busca determinar da melhor maneira possível os detalhes do que foi enxergado; mas, ao final, essa imagem visual receberá uma atribuição inconsciente de valor. Essa atribuição é emocional e é regida pela amígdala cerebral.
Essa pequena estrutura do cérebro age como um verdadeiro leão-de-chácara de boate; é ela quem deixa passar o que é importante e barra todo o resto.
Quando a informação visual sinaliza, pela mais diversas razões, perigo ou desprazer, a amígdala organiza um conjunto de ações em sua defesa. As pupilas dilatam, o sangue corre mais rápido pelas artérias, o raciocínio fica ligado, os reflexos estão em alta e qualidades agora supérfluas como criatividade e intuição são afastadas.
Se a passagem pelo leão-de-chácara se dá sem esses dissabores, a imagem visual ganha acesso ao interior de um labirinto luminoso de lembranças, memórias e possibilidades de prazer.
Agora, um mecanismo denominado de “ressonância” se instala. Se essa informação visual, que nessa etapa está praticamente processada no córtex visual, encontra eco no porão da memória emocional, então o sistema conclui que se trata de algo que poderá voltar a originar prazer no futuro.
Não lhe chamou a atenção, lá em cima, o termo promessa?
Quando tudo estiver pronto com o que foi enxergado, a imagem visual estará ligada a uma promessa futura, cuja vivência é essencialmente prazerosa. Então, agora temos uma imagem mental. Imagem mental é a imagem visual tisnada pela proposta para o futuro. Atração é imagem misturada à proposta de prazer.
E isso tudo ocorre em segundos; mais adiante tudo será percebido como “atração”. A promessa se refere a sensações agradáveis que proporcionarão afinidade, compreensão, união, completude e êxtase.
Daí em diante será uma questão das coisas certas serem ditas, da aproximação a ser realizada e da confiança mútua que precisa ser instalada.
Se soubermos disso tudo, o que podemos fazer em nosso próprio auxílio?
Depende se você é o enxergado ou se está enxergando. Se você é o enxergado ou enxergada, saiba que quem lhe vê não busca por beleza somente; ela ajuda mas é o movimento que provê as informações adicionais e que elevam a chance de encontrar uma promessa no cérebro de quem vê.
Se você quer impacto em alguém que lhe espreita, mova-se. Aja. Fale, sorria, gesticule. Enriqueça suas chances.
Se você for o enxergador(a), é hora de confiar na sua sensibilidade. Agradam-lhe os movimentos que ele ou ela faz? Você os sente como prenúncios, sua intuição sussurra algo?
Observe a imagem no início do texto. Ela impressiona mais pelo movimento dos personagens do que pelo erótico.
Muito bem. Hora de perguntar-se: você é capaz de “sentir” o que vê? Tem acreditado nos seus sussurros? Dado atenção aos corredores luminosos do seu porão emocional?



Nenhum comentário:

Postar um comentário